MEIO AMBIENTE O QUE SERIA?
A boa definição deve esgotar o sentido essencial do ser definido, de maneira ser, mais concisa possível. Além disso, a definição completa deve confundir-se com o ser definido. Eis um exemplo clássico de definição de acordo com a Filosofia: – “Homem é animal racional”. Com efeito, todo homem é animal e racional, todo animal racional é homem, sem maiores discussões. A definição esgota o sentido essencial do ser humano, que é um animal naturalmente dotado de razão – e daí muitas conseqüências práticas podem ser tiradas.Quando não é possível obter-se uma definição essencial procura-se chegar a uma definição descritiva. (…)
Vamos aludir a etimologia de MEIO AMBIENTE.
Possivelmente ela nos ajude a entender o conceito, como se lêssemos dentro dele, e a compreender este mesmo conceito, percebendo a abrangências e alcance que ele tem, pois juntamente com ele, apreendemos outras realidades. O entender e o compreender são aspectos distintos do nosso conhecimento. Se entendermos o MEIO AMBIENTE penetramos na sua essência e constitutivos; se o compreendermos, alcançaremos melhor a realidade que são por ele abrangidas. Parece difícil, mas não é. É apenas uma questão de exercício mental, muito enriquecedor.
Chamo a atenção para a redundância que existe na expressão MEIO AMBIENTE. O “ambiente” já inclui a noção de “meio” e este de alguma forma, implica naquele. Esta expressão reduplicativa existe somente nas línguas portuguesa e espanhola, conhecidas pelos seus excessos. O Italiano refere-se tão só ao “ambiente”, ao passo que o Espanhol adota “Médio Ambiente”. As expressões vão se cunhando de forma espontânea e, a partir de dado momento e por força de múltiplos fatores tornam-se consagradas. É o caso, para nós de MEIO AMBIENTE , como designação de uma entidade especial, substantiva, que se distingue tanto do simples meio como do simples ambiente. MEIO AMBIENTE, por isso, é tomado como uma entidade natural, apropriada, existente em si, diferente de outros meios e outros ambiente.
A palavra MEIO nos leva a uma superfície ou volume em que se insere um ponto qualquer; portanto umas conotações espaciais, geométricas; desde que se está “dentro”, ou inserido, vale dizer que se está “no meio”, ainda que as distâncias dos extremos não sejam perfeitamente regulares. Em nosso caso, “estar no meio” significa estar cercado de outros seres por todos os lados, como que imerso num banho total, embora as distâncias que vão deste ponto aos “extremos” não sejam iguais nem definíveis. “Estar num meio” significa, na pratica, estar dentro dele, por ele envolvido, sem preocupação de limites. Não é pura especulação, nas realidades concretas das várias situações, cada ser que está num meio qualquer é, por referência, o centro desse mesmo meio.
Jogos de palavras acabam por conduzir-nos da teoria à prática do dia-a-dia. Quando apregoamos que o “o homem é o centro das preocupações e o alvo do desenvolvimento” fazemos do ser humano uma referência essencial, de modo que ele passa a ser o ponto central de um determinado universo, à volta de quem se define um conjunto de ações e medidas. E mais: dado que o ser humano universal existe apenas na Metafísica, o meio deve referir-se necessariamente a seres humanos concretos, físicos; por conseguinte, ao estabelecer planos , programas e projetos estaremos visando a seres concretos, tais como uma comunidade rural ou urbana, determinadas reservas naturais e outros seres ou conjuntos de seres que, então passam a ser o ponto central e referência de determinado meio.
A palavra AMBIENTE é composta de dois vocábulos latinos: a preposição amb(o) (ao redor, à volta) e o verbo ire (ir) que se funde numa aritmética muito simples, amb + ire = ambire. Desta simples operação resulta uma soma importantíssima, ir à volta “. Ambiente, pois, é tudo o que vai à volta, o que rodeia determinado ponto ou ser”.Ambiente “começou como particípio presente do verbo ambire ( Ambiens, ambientis) , passou a ser adjetivo para assumir depois , em casos preciso como o nosso , a gloriosa posição de substantivo, designando uma entidade que vai à volta de um determinado ser mas que existe em si mesma. Esta compreensão de totalidade no conceito de MEIO AMBIENTE aparece bem clara numa única palavra apropriada pela língua francesa. Trata-se de ENVIRONNEMENT, significando MEIO AMBIENTE, que foi também transposta para a língua inglesa como ENVIRONMENT.É exatamente a mesma etimologia latina do “ir à volta”, com ligeiras mutações gráficas e fonéticas incorporadas ao longo do tempo.Amb + ire = Ambire (ir à volta) = Ambiente.Env + iron = Os arredores = Environment.O alemão tem outra raiz etimológica, mas conserva a semântica da expressão.Um + Welt ( à volta + mundo) = Umwelt.
Temos assim, o ambiente como uma entidade real substantiva que se relaciona com um ser ou conjunto de seres por ela envolvidos. (…)
Concluímos que nosso ambiente é tudo o que vai à nossa volta e nos arrodeia. O verbo IR – um dos componentes desta realidade – traduz ação, o que é próprio e exclusivo dos verbos: isto imprime ao conceito de ambiente dinamismo e movimento, que se traduzem tanto na influência do ambiente sobre o ser que ele envolve quanto na resposta adequada ao ser envolvido, produzindo-se uma interação de ambos.
Foi dito acima que esta expressão, composta de duas palavras redundantes, fixou-se como forma consagrada para designarmos a grande realidade que nos envolve, a partir da presença de elementos naturais. Por isso vem ela escrita com iniciais maiúsculas, como se fosse nome próprio, uma vez que é apropriada para designar uma entidade específica que se tornou eminente como conceito. Todavia, esta observação é secundária com respeito ao significado real do MEIO AMBIENTE.
É oportuno, sim, observar que muitas vezes simplesmente a palavra MEIO, ou a palavra AMBIENTE, no lugar da expressão completa; o contexto é que se responsabilizará pelo significação precisa. Cumprido este pequeno itinerário filológico, aproxima-nos da conceituação mais usual de MEIO AMBIENTE.
Pensemos no conjunto daquilo tudo que nos rodeia ou envolve e tem relação direta com cada um de nós, enquanto seres vivos que somos. A água de que somos compostos e que ingerimos, o ar que respiramos, o solo sobre o qual nos movemos, os alimentos que comemos, as espécies vegetais e animais que nos cercam – tudo isto tem muito a ver conosco, particularmente com nossa saúde e condições biológicas. O clima em que vivemos e a paisagem que contemplamos exercem, também, influência ponderável em nosso organismo.
Este conjunto está à nossa volta e somos como o seu centro. Todavia, não somos meros seres estáticos e petrificados: reagimos ao conjunto que nos envolve e agimos sobre ele. Bastaria que exercêssemos de maneira rudimentaríssima as nossas funções vitais para entrarmos em interação com o nosso MEIO AMBIENTE. É assim que um agrupamento maior de homens e outras comunidades mais desenvolvidas e complexas vão se relacionando, de diferentes formas, com o meio circunstante e com ele interagindo. É assim que vamos identificando a característica peculiar e essencial que faz do MEIO AMBIENTE uma entidade especialíssima: sua relação íntima com a vida na Terra.
Onde não houver um ser vivo, onde os elementos não se ordenarem para a vida, aí não haverá MEIO AMBIENTE. A degradação ambiental a que chegamos despertou o gênero humano, atirando-o contra a espantosa realidade de uma Terra limitada e deteriorada pelas várias sociedades que a povoam e exploram.
É a vida que está em jogo, e jogo de morte. Podemos conceber um ecossistema sem o Homem, não podemos encontrar o Homem sem algum ecossistema. Vários e diferentes são os habitats dos agrupamentos humanos e das raças, conforme reconhece a Geografia; os animais e as plantas requerem, igualmente, seu meio próprio e característico. Não obstante, em todos estes casos há elementos comuns indispensáveis aos seres vivos. Nascem, crescem, vivem, desenvolvem-se, reproduzem-se e morrem.
Há muitos milênio a humanidade existe, com existência histórica (para não mencionarmos os milhões de anos atribuídos à presença do homem neste planeta em eras não-históricas); no entanto, a preocupação com o MEIO AMBIENTE relacionada à sobrevivência da espécie, não é um fenômeno da Idade Contemporânea.
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Fonte:Engenheiro Luiz Gonzaga de Freitas Filho - luizgonzaga.filho@bol.com.br Ribeirão Preto/SP
Pesquisa:FPN-SP-BRASIL