Amazônia

— centro de controvérsia

O súbito impulso para explorar a Bacia Amazônica ocasionou uma das mais acesas controvérsias ecológicas do século. Porções inteiras de floresta equatorial estão se consumindo em chamas. O resto do mundo se pergunta quais serão os efeitos em longo prazo. Tornar-se-á um deserto vermelho a maior selva verde do mundo?

Fotos transmitidas por satélite revelam que, em uma área de 55 milhões de hectares (equivalente à da França), mais de 4 milhões de hectares já foram desmatados. Isto equivale a uma área maior do que a da Holanda. E ainda: alguns cientistas renomados expressam sua crença de que possivelmente já foram dizimados uns 10 por cento da floresta equatorial amazônica.

Por outro lado, a revista Veja apresenta a opinião de muitos brasileiros: “É natural, também, que a Amazônia não pode ficar indefinidamente fechada à exploração econômica como se fosse um jardim botânico, o país tem necessidade concreta das riquezas ali existentes.”

O que, exatamente, está em jogo na Amazônia?

Como é realmente a selva amazônica?

A Amazônia, conforme é chamada no Brasil, se estende por um território de oito países. Incluindo o Tocantins, abrange uma área de 7.000.000 km2, ou cerca do tamanho da Austrália. A parte brasileira é de quase 5.000.000 km2. Embora seja a maior floresta equatorial do mundo, apenas cerca de 65 por cento de sua área total é de selva mais ou menos densa. O resto é de cerrados, campos e vegetação arbustiva. Uma incrível rede de 80.000 km de vias fluviais entrecruza esta imensa região. Mais de 23.000 km são navegáveis, iguais a mais da metade da circunferência da terra.

Sua composição é tão diversificada que os pesquisadores identificaram mais de 179 espécies de árvores com mais de 15 cm de diâmetro em não mais de um hectare de terra. Somando tudo, umas 4.000 espécies diferentes de árvores crescem na floresta. Mas, sabe-se  pouco destas árvores e de seu potencial que apenas seis ou sete são exploradas comercialmente. Entre as mais conhecidas estão as lustrosas castanheiras-do-pará, o mogno, o cedro e a seringueira.

Em termos gerais, diz-se que mais de 60.000 espécies de plantas tropicais são nativas da Bacia Amazônica. Isto é aproximadamente um quarto de todas as plantas conhecidas. Nenhuma outra concentração de plantas tropicais da terra se pode igualar a isto. Mesmo assim, muitas de milhares nunca foram classificadas, nem foram estudados todos os animais, pássaros, peixes e insetos.

Assim sendo, o que pode significar para a humanidade o desmatamento em massa da Amazônia?

Segundo os cientistas, pode-se perder um conhecimento completo da flora e da fauna amazônica antes que venha à luz sua inteireza. Numa recente Conferência sobre as Espécies Ameaçadas, em São José, na Costa Rica, David Munroe, presidente da União Internacional para a Conservação da natureza, disse:

“Existem argumentos grandemente poderosos que podem ser usados a favor da preservação da floresta pluvial equatorial. Ao mesmo tempo, os líderes dos países em desenvolvimento acreditam que existem argumentos igualmente poderosos para abaterem-na e usarem o dinheiro para o progresso de seu povo. Num certo ponto, a gente começa a alcançar um outro nível de argumento que é menos materialista. As pessoas terão de decidir em sua mente que tipo de mundo querem. Um mundo em que tudo converge para a economia e que será bem estéril e melancólico. Ou um mundo em que se dá grande valor à ampla variedade de coisas onde existe o estímulo da surpresa no mundo natural e a beleza de muitos tipos de vida, todos atuando juntos”.

Ecologia Delicada

A floresta amazônica está sujeita a uma ecologia complexa e, por enquanto, pouco compreendida. Por exemplo, apenas meia dúzia dos 1.100 rios da bacia contêm sedimentos ricos em nutrientes. Portanto, quão rico é realmente o solo?

O jornal de língua inglesa Brazil Herald escreveu:

“O x do problema é que a aparência da Amazônia de eterna fertilidade encobre um dos sistemas ecológicos mais frágeis do mundo. Nas palavras da cientista norte-americana Betty Meggers, a Amazônia é um ‘falso paraíso’ — uma selva cuja exuberância se deriva, não dos elementos do solo, mas, da contínua reciclagem de nutrientes por meio da densa cobertura da floresta”.

Na verdade, o solo da Amazônia é pobre, altamente ácido e longe de ser fértil. Então, como é que a selva consegue sustentar a si própria?

Pelo chamado sistema de ciclagem nutricional direta. Ao redor de praticamente todas as plantas e árvores altas existe um intricado sistema de raízes superficiais. A água da chuva se infiltra através dos vários níveis de folhagem e retira os sais minerais das folhas, dos galhos e dos troncos de árvores. Em sua descida para a camada de húmus no chão, a água rica em nutrientes é parcialmente absorvida e estocada. Plantas parasitas, fungos e insetos também desempenham sua parte em alimentar a floresta.

Outro fator crucial no processo de sobrevivência da floresta são as chuvas anuais de até 3.600 mm. O periódico de língua inglesa, Latin America Daily Post noticiou:

“A mudança de vegetação que acompanha o desmatamento pode levar à alteração do clima local em algumas regiões tropicais. Enquanto estas mudanças permanecem uma conjetura, um projeto brasileiro de pesquisa concluiu que 50 por cento das chuvas na bacia amazônica são originadas da evaporação da própria floresta. Se as chuvas forem significantemente reduzidas como resultado do desmatamento, o inteiro equilíbrio natural da bacia poderia ser transtornado”.

Esta descoberta veio como uma surpresa, pois em outras regiões, como ao longo do Rio Mississipi, apenas 10 por cento das chuvas são causadas pela evaporação local, ao passo que o resto vem do mar.

A Amazônia — o “Pulmão da Terra?”

Muito se escreveu sobre a Amazônia como sendo o “pulmão da terra”. Mas é realmente assim?

Afirma-se que metade do oxigênio da terra gerado pelas plantas vem mesmo da Amazônia. Mas os cientistas também afirmam que esta produção é muito pequena em comparação com o volume total do oxigênio presente na atmosfera. O livro A Selva Amazônica: do Inferno Verde ao Deserto Vermelho? (p. 60), diz que totaliza apenas 0,05% da produção anual da combinação de oxigênio atmosférico e de oxigênio dissolvido.

Seja como for, existe um outro fator desconcertante. É o total de dióxido de carbono que seria liberado em massa pela queima dos restos de floresta. Durante os últimos 100 anos, a presença deste gás já aumentou em 10 por cento. Está bem claro que o homem está brincando perigosamente com a ecologia.

Muitos perguntam: “Como se saem os nativos na luta pelo progresso técnico?”.

A população indígena original no Brasil, em 1500 E.C. era de uns três milhões. Através dos séculos, as doenças e os abusos do homem ocidental reduziram o seu número para menos de 200.000. Em 1970, restavam uns 42.000 na Amazônia. Uma autoridade da Fundação Nacional do índio disse que mais de 3.000 índios na região têm apenas muito pouco contato com o homem branco ou são conhecidos apenas através de informações de outros índios.

Estes nativos, principalmente de cultura tupi, vivem exatamente nas áreas onde a mineração e outros empreendimentos são a ponta de lança do progresso. O que acontecerá a estes índios?

Um Levantamento sem Igual

Em 1970, o governo brasileiro começou um mapeamento aerofotográfico por meio de radar chamado de “Radar da Amazônia” — abreviado para RADAM. O projeto foi completado no outono meridional de 1979, havendo custado por volta de Cr$ 1.500.000.000,00 na época. Ceifou a vida de 55 homens e foram perdidos seis aviões.

O que revelou este levantamento pioneiro?

Confirmou que existe um total de 500.000.000 de hectares de solo amazônico. Também foi dito que 70 por cento da terra são apropriados para a agricultura e criação de gado. Quase 10 milhões de hectares foram descritos como altamente férteis. Embora esta descoberta tenha sido recebida como boas notícias, os técnicos do RADAM frisaram a absoluta necessidade de se tomar muito cuidado com o desenvolvimento da área e de se trabalhar em harmonia com o ecossistema sumamente frágil.

Os depósitos de manganês no Amapá foram estimados em 36 milhões de toneladas. Na serra dos Carajás, no estado do Pará, existe um dos maiores depósitos de minério de ferro do mundo (com um teor de 60 por cento de ferro puro). As reservas de bauxita, que contém o alumínio, são calculadas em 500 milhões de toneladas. O caulim, usado como matéria-prima para cerâmica, no fabrico de papel e na refinação de petróleo, existe em quantidades praticamente inesgotáveis. Além disso, estão lá, para ser explorados, depósitos de cassiterita (minério de estanho), salgema, rochas calcárias, minerais atômicos e ouro.

Desenvolvimento Atual

Já se deu início a centenas de fazendas de criação de gado, algumas do tamanho de países europeus. São bem comuns as fazendas com 20.000 cabeças de gado. Enormes usinas hidrelétricas estão sendo construídas e, ou, já foram construídas, tal como a do rio Tocantins, com uma potência planejada de 6.700 megawatts. O tamanho dos projetos de investimento privado é atordoante. O bilionário norte-americano Daniel K. Ludwig, por exemplo, comprou por volta de um milhão de hectares na selva, no rio Jari, para cultivar eucalipto para celulose, plantar arroz e extrair caulim.

O Futuro

Como é que o progresso irresistível pode ser racionalizado e controlado?

Paulo Azevedo Berruti, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, (IBDF), enfatizou a necessidade de aumentar o número de guardas florestais. Em 1977, as nações que compartilham a região amazônica concluíram o Pacto Amazônico, um instrumento suprapolítico destinado a assegurar a exploração e supervisão conjuntas do seu desenvolvimento.

No começo de 1979, o Ministro do Interior do Brasil, Mário Andreazza, anunciou medidas do governo para a solução da confusa situação. Declarou que as sugestões e os programas para a ocupação da Amazônia devem ter em vista a preservação e ser discutidas a nível nacional.

Hoje o Brasil é potencia agropecuária, a tênue é, a que custo?

Fontes: Citadas em contexto

Pesquisa:

FPN-SP-BRASIL