Embalagens sustentáveis

SÃO PAULO, 12 de junho de 2008 – O assunto sustentabilidade deixa de ser apenas uma pauta para ecologistas e começa a se tornar uma exigência de mercado. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, é cada vez maior o interesse dos brasileiros em relação às práticas socioambientais das empresas.
O percentual de companhias que se preocupavam com este assunto era de 72% em 2004 e, na contagem entre 2006 e 2007, esta cifra já atinge 77% das empresas. No meio de diversos setores que começam a se preocupar e a divulgar ações voltadas para o meio ambiente e responsabilidades socioambientais sustentáveis, o segmento de embalagens também quer garantir o seu lugar no time dos que prezam por um mundo melhor.
“As pessoas estão começando a perceber que simples atitudes garantem a sustentabilidade do planeta e a longevidade das empresas”, avalia Neide Montesano, diretora-presidente da Abmapro (Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização).
As atitudes tomadas pelo setor incluem diversas ações diferentes. Além de apostas na velha e boa forma da reciclagem, as empresas fornecedoras da matéria-prima, principalmente no segmento de plástico, começam a adotar fontes renováveis de insumo, como é o caso dos denominados plásticos verdes, que utilizam o etanol como princípio básico e não mais o petróleo, que é um ativo fóssil.
Novas opções começam a surgir também para a substituição das sacolinhas de supermercado: são as chamadas sacolas retornáveis. Neste setor, renomados estilistas do mundo todo já estão criando seus modelos. No Brasil, a Gatto de Rua, empresa especializada em soluções promocionais, é uma das que apresentam alternativas em sacolas retornáveis.
A empresa, inclusive, já fechou parceria com as lojas ETNA – rede de design e decoração – para a confecção e distribuição de alguns modelos. “Apesar de ainda estar acontecendo de forma devagar, devido à todas as mudanças climáticas que temos observado ultimamente, o consumidor está ficando mais consciente e buscando alternativas para ajudar o meio ambiente. As grandes empresas também estão promovendo ações de conceito consciente para dar uma acelerada neste processo”, comenta Mário Gaspar, sócio-diretor da Gatto de Rua.
Para Luciana Pellegrino, uma das diretoras da ABRE, o assunto sustentabilidade está bastante em pauta na indústria de embalagens, não só no Brasil, mas no mundo todo. “Aqui no Brasil, temos visto muitas empresas desenvolvendo tecnologias, principalmente, para tornar o bioplástico, aquele que vem de uma fonte renovável, compatível com a agilidade e as especificações dos processos produtivos”, afirma.
“Hoje na Europa, cerca de 1% das embalagens são produzidas a partir de materiais de fontes renováveis, ou seja, 1% de todo o mercado. A grande questão é a seguinte: a indústria de embalagens está sempre em desenvolvimento e, atualmente, uma demanda da sociedade e a questão ambiental também estão na pauta do setor. Por isto, faz-se importante desenvolver materiais e tecnologia”, indica a diretora.
Apesar deste desenvolvimento, Luciana acredita que os bioplásticos vão ser sempre apenas uma parcela da produção de embalagens. “Nós não podemos imaginar que vai haver uma substituição em massa dos materiais hoje existentes, por materiais de fontes renováveis. Primeiro porque não há origem, não há fornecimento de materiais de fontes renováveis, muito mais neste momento onde já se começa a falar de uma crise global do fornecimento de alimentos”, declarou.
“Então, há uma discussão mundial muito grande se a sociedade deve priorizar as áreas agrícolas, o esforço de plantio para produção de alimentos que vão ser consumidos pela sociedade global ou para a fabricação de materiais que serão utilizados como insumos. E, isto será sempre uma grande barreira para o crescimento de biomateriais como fonte de materiais de embalagens, ou mesmo, talvez, como fonte de insumos para outros produtos, outros insumos industriais”, analisa. “O foco muito importante ainda é e deve continuar sendo a reciclagem de embalagens”, completa Luciana.
Mesmo com todo o desenvolvimento apresentado pelo setor, Paulo Carramenha, CEO da GfK Indicator, empresa responsável pelo desenvolvimento de pesquisas e autor de um estudo para a ABRE (Associação Brasileira de Embalagens), a sustentabilidade ainda não é o fator decisivo na hora da compra.
“Temos percebido que, de forma geral, este é um assunto que já é presente na vida do consumidor. Todavia, apesar de ele saber da existência, isto ainda não é decisivo nas escolhas. Tem muitos outros fatores que estão na frente da decisão. O mesmo serve para os compradores de insumos das fábricas de embalagens. Constatamos isto na pesquisa que realizamos para a ABRE”, disse.
“A pesquisa mostrou que a sustentabilidade vai dar valor as empresas, já que ganha cada vez mais importância para o seu cliente final, que é o consumidor. Neste sentido, os fornecedores de embalagem e de matéria-prima têm de ajudar a conscientizar os seus clientes, para que novas ações sejam feitas”, recomenda Carramenha. (Angela Ferreira – InvestNews)

Pesquisa: FPN-SP-Brasil

“Reciclagem de Pneus”

O técnico comercial da Unidade de Industrialização do Xisto da Petrobras, Fernando José da Silva, apresenta nesta sexta-feira (13), às 14 horas, a palestra “Reciclagem de Pneus”, na III Feira Brasileira de Reciclagem Preservação e Tecnologia Ambiental – ReciclAção, em Curitiba (PR).

Fernando José irá apresentar a tecnologia utilizada pela Unidade de Industrialização do Xisto da Petrobras (SIX), em São Matheus do Sul (PR), responsável por reciclar mais de 9,5 milhões de pneus desde que a tecnologia foi implantada, em 2001. No co-processamento de pneu e xisto, são obtidos gases, óleo combustível e enxofre utilizado na agricultura e indústrias farmacêuticas e de vulcanização.

A ReciclaAção visa a geração de negócios na área ambiental e discussões entre a comunidade, empresas e estudiosos. O evento conta com patrocínio da Petrobras e é realizado no mês em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Cerca de 80 expositores, entre instituições públicas, fornecedores de equipamentos, serviços e tecnologias para o segmento participarão da feira, que ocorrerá entre 12 e 14 de junho. Com entrada gratuita, a feira funciona das 14h às 21h. A abertura oficial será realizada hoje (11/6), às 19 horas.

Reciclar pneus

A preocupação com o meio ambiente não é novidade na Unidade de Industrialização do Xisto da Petrobras (SIX), em São Mateus do Sul (PR).  Enquanto no mundo inteiro o pneu é considerado um grave problema ambiental, principalmente pela demora para se decompor – pelo menos 600 anos – a SIX recicla o material. Os pneus inservíveis são recebidos de empresas fabricantes e importadoras.

Cada pneu processado, juntamente com o xisto, fornece 52% de óleo, 2,4% de água, 3,6% de gás e 42% de materiais restantes que, misturado ao xisto já beneficiado, serve de insumo para termelétricas, ou pode retornar ao solo sem comprometer o meio ambiente. O arame dos pneus é levado para reciclagem nas indústrias siderúrgicas. Essa é mais uma das formas que a empresa encontrou para contribuir com a melhoria da qualidade da vida urbana. Uma (1) tonelada de pneus rende 532kg de óleo, 24 kg de gás, 314 kg de carbono e 110 kg de aço.

Os pneus inservíveis chegam à SIX cortados, normalmente em tiras ou pedaços, armazenadas na Unidade de Pneus, que faz a dosagem correta de pneus picados à carga de minérios. Misturadas ao xisto, as partes passam pelo mesmo processo utilizado para a extração de produtos do xisto. A mistura é levada por uma correia para a retorta, equipamento e é aquecida a elevadas temperaturas. Todo o processo é feito com tecnologia da própria Petrobras, reconhecida mundialmente.

Pesquisa: FPN-SP-Brasil

Argamassa ambiental para construção civil

O Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e o Instituto Nacional de Tecnologia (INT), órgãos do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), desenvolveram projeto de uma argamassa ambiental.

Segundo as instituições, trata-se de alternativa ecológica e econômica às 720 toneladas de resíduos finos (“pó de rochas”) lançadas mensalmente pelas serrarias de rochas ornamentais nos riachos e rios do município de Santo Antônio de Pádua (RJ).

O resultado prático do estudo dos dois institutos de pesquisa é a inauguração, nesta quarta-feira (11/6), da primeira fábrica de argamassa ambiental no Rio de Janeiro.

A empresa Argamil investiu R$ 8 milhões na instalação da fábrica em Santo Antônio de Pádua, e o Banco de Fomento do Rio de Janeiro (Investrio), R$ 2 milhões para viabilizar o projeto. A fábrica tem capacidade de produzir 1,24 tonelada por mês do produto.

Cetem e INT avançaram na pesquisa da argamassa ambiental a partir da utilização dos resíduos produzidos pelas serrarias que cortam, à beira dos rios, rochas conhecidas como pedras miracema e madeira, para aproveitamento em revestimento de pisos e paredes na construção civil.

A nova técnica, além de reciclar a água poluída, gera um resíduo sólido que, após secagem, pode ser utilizado na formulação da argamassa. Segundo o Cetem, a argamassa ambiental permitirá economia de outras substâncias minerais como a cal ou o calcário, que serão substituídos pelo pó de rocha na formulação da argamassa.

Mais informações: www.cetem.gov.br

Fonte: FAPESP

Pesquisa: FPN-SP-Brasil

 

Amazônia

Foram 1.123 km², praticamente a área do município do Rio de Janeiro (1.182 km²) ou cinco vezes a do Recife (218 km²) – e tudo isso em apenas um mês.

Esse foi o desmatamento observado na Floresta Amazônica em abril, segundo dados do sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na segunda-feira (2/6).

Do total da área em que se verificou corte raso ou degradação progressiva, 794 km², ou 70,7%, estavam no Mato Grosso. Roraima aparece em seguida na relação dos estados da Amazônia Legal com mais desmatamento, com 284,8 km².

Segundo o Inpe, o sistema havia registrado 112 km² de desmatamento no Mato Grosso em março, mas em período em que 78% da Amazônia estava coberta de nuvens, sendo que 69% do estado não pôde ser observado pelos satélites – a cobertura de nuvens costuma variar muito de um mês para outro, assim como a localização das áreas encobertas.

Do total verificado pelo Deter em abril, 53% da Amazônia esteve sob nuvens, mas apenas 14% do Mato Grosso ficou encoberto. Isso indica que a oportunidade de observação no estado aumentou muito de março para abril.

De agosto de 2007 a abril deste ano, o sistema identificou 5.850 km² de área desflorestada. Entre agosto de 2006 e julho de 2007, um intervalo de tempo maior, foram 4.974 km².

Em operação desde 2004, o Deter foi concebido como um sistema de alerta para suporte à fiscalização e ao controle de desmatamento. São mapeadas tanto áreas de corte raso como áreas em processo de desmatamento por degradação florestal.

De acordo com o Inpe, é possível detectar apenas polígonos de desmatamento com área maior que 25 hectares por conta da resolução dos sensores espaciais (o Deter utiliza dados do sensor Modis do satélite Terra/Aqua e do sensor WFI do satélite CBERS, com resolução espacial de 250 metros). Devido à cobertura de nuvens, nem todos os desmatamentos maiores que 25 hectares são identificados pelo sistema.

Mais informações: www.inpe.br

Pesquisa: FPN-SP-Brasil

“farmacocinética” – Do natural ao artificial

Os pesquisadores que se dedicam à descoberta e desenvolvimento de novos fármacos acabam de ganhar um importante aliado: foi lançada a primeira base de dados brasileira de propriedades farmacocinéticas.

A base de dados, que contém informações sobre propriedades farmacocinéticas e físico-químicas de mais de 1,3 mil fármacos, foi inteiramente criada por pesquisadores do Laboratório de Química Medicinal e Computacional (LQMC) do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da Universidade de São Paulo (USP).

O LQMC faz parte do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME), um dos 11 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.

De acordo com o coordenador do LQMC, Adriano Andricopulo, o termo “farmacocinética” se refere ao caminho que um medicamento faz no organismo, englobando processos de absorção, distribuição, metabolismo e excreção (ADME).

“O cientista que trabalha no projeto de um novo fármaco precisa estudar essas propriedades, mas encontra grande dificuldade, pois há pouca disponibilidade de dados padronizados. Essa base de dados, inédita na América Latina, tem poucas similares no mundo e nenhuma delas tem acesso aberto e gratuito”, disse Andricopulo à Agência FAPESP.

As informações sobre os 1,3 mil fármacos disponíveis na base, batizada de PK/DB (de Database for Pharmacokinetic Properties), incluem mais de 3,2 mil medidas de propriedades farmacocinéticas, entre as quais absorção intestinal, biodisponibilidade oral, ligação às proteínas plasmáticas, metabolismo mediado pelo citocromo P450, volume de distribuição, tempo de meia-vida e permeabilidade da barreira hemato-encefálica.

Segundo Andricopulo, que também é diretor da Divisão de Química Medicinal da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), foram necessários cinco anos de trabalho para reunir e padronizar informações detalhadas sobre uma quantidade tão grande de compostos.

“O resultado é uma base bastante robusta, que permite estudar propriedades de moléculas com grande diversidade química. Com isso, os pesquisadores podem planejar mudanças estruturais na molécula e observar como elas vão afetar as propriedades”, disse.

Predição de propriedades

Andricopulo explica que a farmacodinâmica, isto é, o estudo sobre como os fármacos interagem com seu receptor-alvo para exercer sua ação farmacológica, tem sido muito valorizada. Mas sem conhecer as propriedades farmacocinéticas não se pode compreender como o fármaco poderá chegar a seu alvo.

“Para que um fármaco seja administrado por via oral – que é um objetivo fundamental para a indústria farmacêutica – a fase farmacocinética precisa ser profundamente estudada. Eventualmente, uma molécula pode ter excelentes características famacodinâmicas, mas pode não ser solúvel em água, por exemplo, o que inviabilizaria um projeto de medicamento com administração oral”, explicou.

Outra característica importante da base PK/DB é que ela conta com um novo sistema integrado de predição de propriedades, que se baseia em modelos desenvolvidos pelo grupo do LQMC com uma nova tecnologia de fragmentos moleculares especializados.

“Pelo sistema, o pesquisador pode enviar a molécula nova que desenvolveu e nós enviamos a predição das propriedades. Nenhuma base de dados do mundo disponibiliza esse serviço gratuitamente, de forma rápida e eficaz”, disse o pesquisador.

Segundo ele, os modelos inovadores incluem a predição de propriedades de absorção intestinal, ligação às proteínas plasmáticas, permeabilidade da barreira hemato-encefálica, solubilidade em água e biodisponibilidade oral.

Desenvolvido com auxílio da FAPESP no doutorado de Tiago Moda, um dos alunos de Andricopulo no LQMC, o modelo de biodisponibilidade oral teve repercussão internacional. Ele foi descrito em artigo na revista Bioorganic & Medicinal Chemistry e foi destaque, em nono lugar, na lista dos 25 melhores artigos da revista em 2007.

“A biodisponibilidade oral humana se refere à fração do fármaco administrado que chega de fato à via sistêmica, isto é, à corrente sangüínea do paciente, onde poderá encontrar seu receptor-alvo e exercer o efeito terapêutico. Por exemplo, no caso do medicamento de maior sucesso de vendas da história – US$ 12,68 bilhões somente em 2007 -, o redutor de colesterol Lípitor, a biodisponibilidade é de 14%. Por isso, é fundamental ter acesso a esses dados na hora de desenvolver um novo medicamento com propriedades otimizadas”, disse.

De acordo com Andricopulo, a base de dados permite também que o pesquisador faça uma busca por um fragmento de uma molécula, caso trabalhe com uma molécula que não esteja disponível. “É possível encontrar uma imensa quantidade de moléculas. Mas também se pode encontrar, por meio de um fragmento, as propriedades farmacocinéticas aplicáveis ao caso estudado”, destacou.

PK/DB: www.pkdb.ifsc.usp.br

Persquisa- FPN-SP-Brasil

Comércio ecológico!? Éh, é isso mesmo.

A Goóc, empresa especializada na produção de produtos ecologicamente corretos, conta com lançamentos entre acessórios e calçados para presentear namorados e namoradas que primam pelo estilo e conforto, mas que também valorizam produtos que não agridem o meio ambiente.

Para as mulheres, a marca destaca o modelo de sandália Goóc Fine, um produto que une sofisticação e conforto e que foi desenvolvido a partir de borracha reciclada de pneu. As tiras são finas, roliças e não marcam os pés.

Além disso, elas contam com duas alianças prateadas nas tiras, encontradas em cores cintilantes como lilás, rosa, verde, bronze e prata. Na parte interna do solado, pontos massageadores proporcionam conforto para os pés.

Para os homens, o destaque fica para os modelos de sandálias. Uma delas é feita com borracha de pneu reciclado e encontrada com tiras nas cores prata, bronze, preto, vermelho, verde e amarelo.

Há ainda a opção do chinelo feito com lona reaproveitada e tratada, solado de borracha de pneu reciclado e parte interna do solado estampada. A papete também é feita com lona e borracha de pneu reciclado.

As mochilas em lona reciclável, que podem ser usadas tanto pelos homens quanto pelas mulheres, contam com diversos compartimentos e cores neutras.

Os produtos Goóc podem ser encontrados em todo o Brasil, além de países como Canadá, EUA, Jamaica, Ilhas Caiman, Santa Lúcia, Colômbia, Equador, Bolívia, Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Angola, Austrália e Japão. No estado de São Paulo, eles podem ser encontrados nas lojas das redes Besni, Mundial Calçados e Pontal Calçados.

Pesquisa: FPN-SP-Brasil

Fonte: http://www.reporterdiario.com.br/index.php?id=80082

No limite da ignorância

Agência FAPESP – O conhecimento sobre as mudanças climáticas globais não pára de crescer. Mas, na Amazônia, uma das regiões mais afetadas do mundo por esses fenômenos, as sofisticadas informações científicas não chegam ao pequeno agricultor, limitando sua capacidade de tomar decisões apropriadas para adaptação às mudanças.

A análise foi feita pelos pesquisadores Eduardo Brondizio e Emilio Moran, em artigo publicado na revista Philosophical Transactions B, da Royal Society, em edição inteiramente dedicada à Amazônia.

O artigo se baseou em uma série de estudos de campo feitos pelos dois antropólogos nas últimas décadas. O brasileiro Brondizio, que é chefe do Departamento de Antropologia da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, trabalha há duas décadas com os povos da Amazônia, região para onde segue anualmente. Moran, cubano naturalizado norte-americano e professor da mesma insituição, estuda a região há três décadas.

De acordo com Brondizio, a desconexão entre informação climática e a realidade dos pequenos agricultores é agravada pelas mudanças na organização social, que têm tornado as populações locais mais flutuantes e heterogêneas.

“A percepção das mudanças climáticas tem sofrido modificações, principalmente entre as comunidades de migração recente. Descobrimos que a maioria dos agricultores não se lembra de eventos climáticos ocorridos há mais de três anos. Em 2002, mais de 50% dos entrevistados não lembravam da seca causada pelo El Niño em 1998, por exemplo”, disse à Agência FAPESP.

Brondizio explica que o estudo procurou, em seu eixo teórico-conceitual, buscar meios para integrar duas tradições diferentes de interpretação das mudanças climáticas: enquanto os antropólogos observam como a cultura local direciona a reação das comunidades às mudanças, os físicos observam o processo em nível regional e global.

“Temos uma vasta literatura sobre os processos adaptativos e de manejo ambiental, mas ela ainda não está conectada com as novas demandas trazidas pela questão das mudanças climáticas. Queremos entender não só como as pessoas percebem mudanças no ambiente local, mas como as informações com dados regionais são utilizadas para orientar a adaptação”, disse.

Além de propor um arcabouço teórico para entender a adaptação às mudanças climáticas, segundo o antropólogo, a pesquisa teve outro eixo cujo objetivo é aplicar essa análise a uma realidade representativa da Amazônia.

“Focamos os estudos de campo em duas áreas do Pará que mostram muito bem os problemas enfrentados pelos agricultores e os limites para lidar com as secas e inundações causadas pelos fenômenos enfocados na teoria: as comunidades ao longo da rodovia Transamazônica, entre Altamira e Medicilândia, e a área ao longo da rodovia BR-163, entre Rurópolis e Santarém”, disse Brondizio.

As duas áreas, segundo conta, abrigam grande número de produtores rurais, na maior parte desassistidos e que integram comunidades extremamente dinâmicas, marcadas por mudanças freqüentes, falta de infra-estrutura e alta taxa de migração e de transformação do uso da terra.

“Essas características criam impedimentos para que as pessoas desenvolvam, ao longo do tempo, uma memória coletiva sobre as mudanças do meio ambiente. Também não conseguem criar formas coletivas de ações adaptativas”, apontou.

Vivência local

Acompanhando as duas áreas, com extensos trabalhos etnográficos, Brondizio e Moran procuraram compreender como as comunidades se modificaram de acordo com pressões externas – tanto econômicas como ambientais. Na região há famílias originárias de processos migratórios antigos e comunidades em plena formação.

“Uma série de pontos chamou a atenção. Um deles foi que a percepção sobre mudanças climáticas é proporcional ao tempo em que os indivíduos estão na região. Os que estão há menos tempo não sabem interpretar os fenômenos, não conseguem perceber se um evento é uma anomalia ou um padrão periódico. E também não têm um vocabulário apropriado para distinguir os fenômenos”, afirmou Brondizio.

Os estudos mostraram também, de acordo com o antropólogo, que comunidades mais antigas têm mais facilidade para desenvolver regras de uso de recursos que minimizam o impacto do uso de fogo para queimadas.

“As formas de ação coletiva, como as precauções para não alastrar o fogo para áreas vizinhas, são mais eficazes em comunidades mais antigas, com redes sociais mais fortes e maior compreensão das sutilezas ambientais”, disse.

O artigo Human dimensions of climate change: the vulnerability of small farmers in the Amazon, de Eduardo Brondizio e Emilio Moran, pode ser lido por assinantes da Philosophical Transactions B em http://journals.royalsociety.org.

Por Fabio de Castro: http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8916

Pesquisa: FPN-SP-Brasil